Casas Nobres do Entre Douro e Minho - CASA DO RIBEIRO em Toutosa
- Aug 19
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Updated: 1 day ago
Existem muitas casas nobres na paisagem rural do norte de Portugal. Escrevi diversos artigos sobre casas senhoriais em que meus ancestrais viveram, mas poucas eram casas nobres. Pesquisar suas moradas foi uma tentativa de situá-los no tempo e no espaço. Ao escrever sobre suas casas, não pude deixar de partilhar a impressão que me causaram: algumas eram apenas ruínas da morada de uma família, enquanto outras refletiam na pedra secular a nobreza da sua origem!
Algumas das casas nobres da região do Entre Douro e Minho integraram o patrimônio dos descendentes de uma elite que se considerava a pequena nobreza local. Suas casas distinguiam-se pela presença de uma torre, uma capela ou um brasão. No entanto, quanto mais longe viajamos no passado dessa região, vemos que os senhores dessas casas nobres eram lavradores abastados que se tratavam à lei da nobreza e reforçavam seu status social evocando suas origens. Muitos abriam processos de justificação de nobreza para adquirir o direito de usar brasão de armas. Outros faziam uso desses mesmos símbolos sem sequer passar pelo processo burocrático de justificar a sua origem.
Os documentos das vedorias medievais, que sobreviveram em alguns arquivos regionais, revelam que algumas casas da época feudal eram simples pardieiros e foram reedificadas nos séculos seguintes, passando a refletir na pedra as conquistas de uma nova nobreza que se consorciou com mercadores locais, enriquecidos pelo lucrativo comércio dos séculos seguintes.
Os casamentos de conveniência estiveram sempre presentes nas famílias que desejavam aumentar seu patrimônio herdado. Da mesma forma que os casamentos da realeza refletiam objetivos políticos e territoriais, as uniões dos jovens dessas famílias da nova nobreza rural também eram ditadas pela conveniência de engrandecer o patrimônio da casa senhorial de um dos noivos.
Dizem que os principais solares do Reino de Portugal acham-se pelos campos e montes da região do Entre Douro e Minho. Com efeito, o tipo de evolução patrimonial e sociológica acima descrito aparece em muitas quintas ou casas senhoriais dessa região. O primeiro artigo dessa série focalizou a Quinta de Vila Nova em Castelões, Penafiel. Outras casas ou quintas serão focalizadas nos próximos artigos, segundo o meu critério de escolha: o fato de a propriedade ter sido a morada de algum ancestral da minha família.
CASA DO RIBEIRO - Toutosa, Marco de Canaveses
Família Souza e Vasconcelos
Existem duas circunstâncias que tornam a Casa do Ribeiro diferente das outras que tenho descrito nos artigos desse blog. A primeira é que o meu parentesco com o ancestral que viveu na Casa do Ribeiro, o Padre Pedro Aleixo de Souza, é por bastardia, obviamente. Sua filha Luiza de Souza viveu sempre na Casa do Ribeiro como "familiar do Padre Pedro Aleixo" até a morte dele. Ela passou então para Carvalhosa, onde deu origem à família Souza e Vasconcelos, que floresceu entre 1680 e 1844. Seus descendentes foram senhores da Quinta de Fundevila, um antigo solar que sobreviveu a muitos séculos e foi recentemente restaurado e passou a chamar-se Solar da Cavalhosa. Nossa ancestral Madalena Emília Vasconcelos de Mesquita (trineta de Luiza de Souza) passou para Vila Meã em 1804 e deu origem a uma família cuja maior parte, mais tarde, emigrou para o Brasil. Um ramo dessa família de emigrantes voltou para o Porto, onde se estabeleceu no palacete da Rua de Santa Catarina e, mais tarde, na Casa de Santa Cruz, em Vila Meã.
A outra circunstância é que eu nunca tive oportunidade de visitar a Casa do Ribeiro, que há muito já não pertence à família Souza, da minha origem remota. Tendo em vista essas duas circunstâncias, optei por descrever a Casa do Ribeiro como o fizeram os profissionais da arquitetura local e um possível parente dos novos donos.
Os parágrafos seguintes contêm citações de um texto de
Fernando de Pamplona, a quem dou o devido crédito.
"No concelho de Marco de Canaveses, no lugar da Livração, ergue-se um importante solar seiscentista: a CASA DO RIBEIRO. A fachada mais interessante e também a mais antiga é a do Nascente, que tem à esquerda uma TORRE quadrada, coroada de ameias também quadradas, talvez do começo do século XV. Depois, desenham-se janelas de arco abatido, outras em flor de lis ou de moldura rectangular boleada nos ângulos, e rasga-se uma entrada de serviço com remate em arco abatido e escada rústica, além de um arco de volta redonda a nível do solo. Mais adiante, uma escadaria de pedra, com corrimãos de linhas sinuosas, enroladas em voluta nos extremos, dá acesso à CAPELA, encimada por uma sineira de arco redondo e por uma cruz."

"É de crer que este solar, como tantos outros, tenha tido várias e sucessivas construções, aglutinadas hoje em um só bloco, e que a edificação primitiva, na sequência da torre quatrocentista, tenha sido sacrificada em grande parte ao corpo seiscentista, mais amplo e majestoso, ao sabor da moda do tempo. De facto, tudo leva a pensar que a TORRE e seus anexos sejam anteriores em mais de um século à parte nobre do solar, porquanto não é de supor que, em pleno século XVII, se erguessem torres ao estilo dos mil e quatrocentos... Dificilmente, um arquitecto saudosista ressuscitaria uma torre medieval para imprimir cunho senhorial à fisionomia do solar... Ao contrário, os arquitetos que reformaram velhos mosteiros, igrejas e palácios faziam acréscimos ou complementos sempre no estilo vigente e não no estilo do tempo da fundação..."

"A entrada do Nascente faz-se por um portal de moldura de pedra, com uma cruz ao alto, ladeada de pináculos piramidais. Ao Sul, junto aos ângulos do vasto quadrado, abrem-se duas varandas de granito, uma delas bastante extensa (quase um salão) com colunas toscanas e golas singelas junto aos capitéis. Ambas disfrutam de largas vistas panorâmicas sobre as serranias do Douro."

"A fachada Norte deve datar de meados do século XVII a julgar pelas características de estilo: contém oito varandas corridas com balaústres de ferro e, ao nível do solo, quatro grandes portões de madeira, almofadados. Nos ângulos, cunhais com pilastras de pedra."
"Dá acesso ao terreiro um portal de linhas maneiristas encurvadas e pináculos piramidais, armoriado na empena com escudo partido, em que figuram os brasões dos RANGÉIS, com uma flor de lis e bordadura carregada de sete romãs, e dos PAMPLONAS, com seis burelas de oiro, tudo rematado pelo timbre dos Pamplonas, um leão sainte faxado de cinco peças de oiro."


"A entrada da casa faz-se por um dos portões almofadados da frontaria, através de um harmonioso pátio de pedra e de uma larga escadaria de dois lances, separados por um arco. Os amplos salões têm tetos de masseira ou de gamela. O do grande salão contém o BRASÃO da família: escudo esquartelado, com as armas dos MONTEIROS (de prata, com três trompas de caça de negro, embocadas e viroladas de oiro, com cordões de vermelho); as armas dos SOUZAS do Prado, da Casa dos condes de Redondo, senhores de Gouveia de Riba-Tâmega (esquarteladas, 1 e 4 de Portugal antigo (5 quinas) e 2 e 3 de prata com leão de púrpura); as armas dos VASCONCELOS (de negro, com três faixas veiradas e contraveiradas de prata e vermelho); e as armas dos Correias, de Belas (de vermelho, com cruz de oiro cantonada de quatro flores de lis); ao alto, o timbre dos Sousas: leão de púrpura, coroado duma grinalda de prata florida de verde. O teto do salão contíguo, chamado de "sala de visitas", é muito bonito: talha policromada, painéis lisos e claros e molduras ricamente lavradas. Em duas salas, encontram-se duas liteiras do século XVIII, cuidadosamente restauradas."
Nota: A leitura que Fernando de Pamplona faz do 4º quartel do brasão de armas da família da Casa do Ribeiro (Correias, de Belas) parece estar equivocada, pois não há Correias na ascendência dos Senhores da Casa do Ribeiro. Só tendo acesso à carta de brasão ,seria possível dirimir essas dúvidas, mas parece muito plausível tratar-se de Teixeiras. Outras fontes descrevem o brasão da família da Casa do Ribeiro com as armas dos MONTEIRO, dos SOUZA, dos VASCONCELOS e dos TEIXEIRA (e não dos Correias), como já citei em trabalhos anteriores sobre a Casa do Ribeiro. Não encontrei representação gráfica desse brasão.
SENHORES da CASA do RIBEIRO desde 1621
Finalizo esse artigo sobre a CASA DO RIBEIRO com a lista dos senhores dessa casa nobre de Marco de Canaveses. Começo com o casamento de Pedro Aleixo Monteiro com Maria Francisca de Souza em 1621. Os nomes dos ancestrais da minha família aparecem em letras maiúsculas.
PEDRO ALEIXO MONTEIRO (filho de PERO ALEIXO e s/m CATARINA DIAS, falecido em 1660) e s/m MARIA FRANCISCA DE SOUZA (filha de FRANCISCO GONÇALVES e s/m MARIA FERNANDES, falecida em 1668) casaram-se em 19-4-1621 em Vila Caiz, Amarante. Filhos: Isabel de Souza, Gonçalo de Souza Monteiro, PEDRO ALEIXO DE SOUZA, João de Souza Monteiro.
MARIA FRANCISCA DE SOUZA aparece em Felgueiras Gayo (Título: Teixeiras, § 24) como filha de FRANCISCO GONÇALVES e de ANA FREITAS DE SOUZA, que era filha de MANUEL AFONSO DE SOUZA e descendente de FERNÃO DE SOUZA, Senhor de Gouveia de Riba-Tâmega (dos Sousas do Prado). No entanto, no assento de casamento do Pedro Aleixo com Maria Francisca ( Vila Caiz, 19-4-1621), acima mencionado, os pais da noiva são Francisco Gonçalves e Maria Fernandes. Não há como verificar se Francisco Gonçalves se casou mais de uma vez, pois só há registros de casamento de Vila Caiz a partir de 1602 e ele teria se casado antes dessa data.
Sargento-Mór João de Souza Monteiro (1634-1707) e s/m Joana Teixeira de Vasconcelos (f. 1707) casaram-se em 1677 na Capela de NS de Fraris, em Lufrei. Filhos: Isabel de Souza, Manuel de Souza de Vasconcelos, Fernando de Souza de Vasconcelos, Henrique de Souza, Margarida de Souza, Clara Luiza, João de Souza Monteiro.
Capitão Manuel de Souza de Vasconcelos (1681-1762) e s/m Maria de Lima Vasconcelos e Castro (1690-1766) casaram-se em 1712 em Toutosa. Filhos: Antonio José, Padre João Manuel de Vasconcelos e Castro (Habilitação para Comissário do Santo Ofício - Torre do Tombo, PT/TT/TSO-CG/A/008-001/12661 TSO-CG, Habilitações, João, maço 108, doc. 1769 - não há referência à sua ascendência pelos Sousas), Margarida, Manuel Mendes de Vasconcelos, Luís Antonio de Souza Vasconcelos, Rosa Maria de Lima e Vasconcelos, Francisco José de Vasconcelos, Josefa Lima de Vasconcelos, Antonio de Vasconcelos Castro e Souza Teixeira.
Manuel de Sousa e Vasconcelos foi escrivão das sisas (1708), cavaleiro da Ordem de Cristo e capitão-mor do concelho de Santa Cruz de Riba-Tâmega (1714). Casou-se com escritura de dote lavrada a 4-7-1712, com D. Maria de Lima de Vasconcelos e Castro, natural de Amarante, filha herdeira de João de Castro e Vasconcelos (dos Vasconcelos de Fontelas), senhora da Casa de Gondeiro.
Antonio de Vasconcelos Castro e Souza Teixeira (1730-1823) e s/m Maria Violante de Souza Sampaio casaram-se em 1764 em São Martinho de Recesinhos. Filhos: Antonio de Vasconcelos de Souza, Tomásia de Souza Correia, Josefa Julia Correia de Vasconcelos, Bento Correia de Vasconcelos e Souza, Ana Angélica, João, José Maria de Vasconcelos e Souza Monteiro, Francisca, Felix Correia de Souza e Vasconcelos.
José Maria de Vasconcelos e Souza Monteiro (1785-1853) e s/m Maria do Patrocínio de Araújo Rangel (1783-1845) não tiveram filhos e deixaram como herdeira uma sobrinha de Maria do Patrocínio.
Maria (Carolina) de Araújo Rangel e seu marido (nome?) Pamplona. Filho: José Rangel Pamplona,
A sobrinha herdeira de Maria do Patrocínio de Araújo Rangel, mulher de José Maria de Vasconcelos e Souza Monteiro, chamava-se Maria (ou Maria Carolina) e era filha de um irmão da dita Maria do Patrocínio. Ela pode ter sido filha de filha de João Tomás de Araújo Rangel ou de Joaquim de Araújo Rangel, da Casa de Fanzadas, e s/m Emília. O que é certo é que essa sobrinha herdeira casou-se com um Pamplona e seu filho José Rangel Pamplona teria sido o patriarca da nova geração de senhores da Casa do Ribeiro, com os apelidos Rangel Pamplona.
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Carmen Souza Soares Reis
20 agosto 2026






















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